quinta-feira, 21 de abril de 2011





"Tudo o que sei é que devo morrer breve. O que, porém, mais ignoro é essa morte que não posso evitar. Assim como não sei de onde venho, também não sei para onde vou Sei, apenas, que, ao sair deste mundo, cairei para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irritado, sem saber em qual dessas duas situações deverei ficar eternamente. Eis a minha condição, cheia de miséria, de fraqueza, de obscuridade"



Ele veio, enfim, na consumação dos tempos: e, desde então, viram-se nascer tantos cismas e heresias, tantos desmoronamentos de Estados, tantas mudanças em todas as coisas; e essa Igreja a que adora aquele que sempre foi adorado subsistiu sem interrupção. E o que é admirável, incomparável e inteiramente divino, é que essa religião que sempre durou foi sempre combatida. Mil vezes esteve na iminência de uma destruição universal; e, todas as vezes que se achou nesse estado, Deus tornou a levantá-la com golpes extraordinários de potência. É assombroso que assim seja e que ela se mantenha sem dobrar-se e curvar-se sob a vontade dos tiranos. Os Estados pereceriam se não se fizesse com que as leis se submetessem freqüentemente à necessidade. A religião, porém, nunca sofreu isso, nunca usou disso. São necessários ou esses acomodamentos ou milagres. Não é de estranhar que nos conservemos submissos, e isso não é propriamente manter-se; e ainda pereçam eles, enfim, inteiramente; não há o que tenha durado mil e quinhentos anos. Mas, que essa religião se mantenha sempre inflexível, isso é divino
Os egípcios estavam infectados de idolatria e de magia; o próprio povo de Deus era influenciado por seus exemplos. No entanto, Moisés e outros acreditavam naquele que não viam e o adoravam olhando para os dons naturais que ele lhes preparava. Os gregos e os latinos, em seguida, fizeram reinar as falsas divindades; os poetas fizeram cem diversas teologias: os filósofos se separaram em mil seitas diferentes: no entanto, havia sempre, no coração da Judéia, homens escolhidos que presidiam à vinda de um Messias que só por eles era conhecido.

VII

Essa religião, que consiste em crer que o homem desceu de um estado de glória e de comunicação com Deus a um estado de tristeza, de penitência e de afastamento de Deus, mas que, depois desta vida, seremos restabelecidos por um Messias que deve vir, sempre existiu sobre a terra. Todas as coisas passaram, subsistindo aquela para a qual todas as coisas existem. Os homens, na primeira idade do mundo, foram arrastados a toda sorte de desordens, embora houvesse santos como Enoc, Lamec, e outros, que esperavam pacientemente o Cristo prometido desde o começo do mundo. Noé viu a malícia dos homens no mais alto grau e mereceu salvar o mundo em sua pessoa pela esperança do Messias, do qual foi ele a figura. Abraão estava cercado de idólatras, quando Deus fez com que ele conhecesse o mistério do Messias, que ele saudou de longe. No tempo de Isac e de Jacó, a abominação estava espalhada sobre toda a terra: mas, esses santos viviam na fé; e Jacó, morrendo e abençoando seus, filhos, exclama, num transporte que o obrigou a interromper seu discurso: Eu espero, meu Deus, o Salvador que prometeste: Salutare tum expectabo, Domine.


Nenhuma outra religião propôs que nos odiemos a nós mesmos. Nenhuma outra religião pode, pois, agradar aos que se odeiam a si mesmos e que procuram um ser verdadeiramente amável. E estes, se nunca tivessem ouvido falar da religião de um Deus humilhado, a abraçariam incontinente. Nenhuma outra ( religião, a não ser a cristã) conheceu que o homem é a mais excelente criatura (e ao mesmo tempo a mais miserável). Uns, que conheceram bem a realidade de sua excelência, adquiriram por covardia e por ingratidão os sentimentos baixos que os homens, naturalmente, têm em si mesmos; e outros, que conheceram bem quanto essa baixeza é efetiva, trataram com uma soberba ridícula esses sentimentos de grandeza, que são tão naturais no homem. Nenhuma religião, a não ser a nossa, ensinou que o homem nasce com pecado; nenhuma seita filosófica o disse; portanto, nenhuma disse a verdade.
As outras religiões, como as pagãs, são mais populares, porque se exteriorizam: não são, porém para as pessoas hábeis. Uma religião puramente intelectual seria mais proporcionada aos hábeis, mas não serviria ao povo. Só a religião cristã é proporcionada a todos, sendo composta de exterior e de interior. Ela eleva o povo ao interior e baixa os soberbos ao exterior, não sendo perfeita sem os dois, pois é preciso que o povo entenda o espírito da letra e que os hábeis submetam o seu espirito à letra (praticando o que há de exterior).